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Michael Jackson - A trajetória do Rei do Pop até a morte (1958-2009)

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Por: Folha de S. Paulo
Data de Publicação: 26 de junho de 2009
Um dos maiores astros da música chegou ontem a hospital da Califórnia em coma profundo, aparentemente sem vida

Causas da morte do músico são incertas; polícia de Los Angeles afirma que vai investigar o caso, mas diz que é procedimento padrão



SÉRGIO DÁVILA
DE WASHINGTON

Michael Jackson, o menino de 50 anos que revolucionou a música pop nos anos 80 com seu estilo e voz únicos e chocou o mundo por suas bizarrices na vida pessoal, morreu ontem em Los Angeles, na Califórnia.

A morte foi pronunciada às 14h26 locais (18h26 de Brasília) por médicos do Centro Médico da Universidade da Califórnia (UCLA), aonde ele chegou em coma profundo. Até a conclusão desta edição, não estavam claros os motivos que levaram à parada cardíaca que motivou o pedido de resgate, feito de sua casa às 12h21 locais.

Paramédicos dos bombeiros de Los Angeles o encontraram já sem sinal de pulso ou respiração na residência que alugava em Bel Air. O tempo levado entre o resgate e a entrada no hospital foi de seis minutos. No início da noite, vazou uma foto de Jackson na maca da ambulância, aparentemente já sem vida.

"Médicos tentaram ressuscitar meu irmão por uma hora", disse Jermaine Jackson, no único comunicado oficial da família de músicos. Brian Oxman, advogado ligado aos Jackson, disse que ele teria problemas com uso excessivo de remédios vendidos sob prescrição médica, supostamente por conta da pressão de uma turnê de 50 shows que acabara de anunciar em Londres.

O departamento de homicídios da polícia local abriu investigação sobre a morte, mas o detetive-chefe da força disse que se trata de procedimento padrão em casos com personalidades públicas, e não por suspeita de morte provocada.

Minutos após o anúncio da morte de Jackson ir ao ar no site de celebridades TMZ, o primeiro a dar a notícia, dezenas de fãs já se reuniam na porta do hospital para onde o músico foi levado e em frente à casa que ele alugava desde que pôs à venda o rancho Neverland.

Em Nova Orleans, na Louisiana, fãs tomaram as ruas. No teatro Apollo, no bairro negro do Harlem, em Nova York, dezenas de pessoas cantavam a capela sucessos do músico como "Billie Jean". Em Washington, lojas de CDs viam esgotar rapidamente as cópias disponíveis dos discos do rei do pop.

Jackson foi um dos maiores artistas da música pop do século passado, com 14 músicas em número um nas paradas norte-americanas, incluindo "Beat It", "Billie Jean" e "Black or White". Seu disco "Thriller", de 1982, é considerado o mais vendido da história da música -números variam de 50 milhões a 104 milhões de cópias comercializadas; o "Guinness" aponta 55 milhões de cópias.

Parte do sucesso veio de sua capacidade de atrair plateias negras e brancas, o que o meio musical chama de "crossover". "É quase impossível exagerar o impacto que ele teve na música e na cultura populares", disse Alan Light, ex-editor das revistas "Spin" e "Vibe". "Ele definiu tudo o que o videoclipe poderia ser e personificou o "crossover", unindo música negra e rock."

Apesar disso, a virada do século o viu perder fãs, o que exacerbou seu comportamento errático. Jackson não lançava um álbum de estúdio desde 2001, com "Invincible", que alcançou o topo da parada americana. Iniciaria em 13 de julho uma extensa turnê de 50 apresentações na O2 Arena, em Londres.

Embranquecimento
Nascido em Gary, no Estado de Indiana, Michael Joseph Jackson ganhou fama aos 11 anos, em 1969, ao lado de seus irmãos, no grupo Jackson 5.
A transformação por que passou sua cor de pele desde meados dos anos 1980 motivou os mais diversos rumores.

O cantor enfrentou ainda acusações de que teria abusado de menores. Em julho de 2005, foi inocentado em um julgamento em que era alvo de dez acusações -incluindo a de ter molestado sexualmente um menino de 13 anos.

Estimava-se que suas dívidas chegassem a US$ 200 milhões.

Ele deixa três filhos: Michael Joseph Jackson Jr., Paris Michael Katherine Jackson e Prince Michael Jackson 2º.



Astro tinha saúde frágil, agravada recentemente
DA REPORTAGEM LOCAL

Figura frágil do pop, Michael Jackson costumava sair às ruas de máscara cirúrgica e, não raramente, com uma sombrinha.

Nos últimos meses, com o anúncio da turnê em julho, em Londres, voltaram a circular os rumores sobre sua saúde, que estaria debilitada demais para aguentar os 50 shows.

Apesar de seus assessores negarem, a imprensa britânica afirmou recentemente que o astro lutava contra um câncer de pele.

Diziam também que estava tomando um pesado coquetel de remédios contra ansiedade, incluindo Xanax, Zoloft e Demerol, para aguentar o ritmo dos ensaios para as próximas apresentações.

Mesmo assim, o cantor, que vivia recluso desde 2005, após se livrar das acusações de abuso sexual infantil, vinha ensaiando para os shows, ou pelo menos era o que diziam.

Rand Phillips, da produtora da turnê AEG Live, chegou a dizer que o nível de colesterol de Jackson era "melhor que o meu". O astro passara por uma série de exames médicos e tudo corria bem.

Mas, com tantos mistérios rondando o rei do pop -é verdade que ele dormia numa câmara hiperbárica para não envelhecer?-, é difícil saber no que acreditar.

Histórico
Além dos eternos mistérios sobre o embranquecimento de sua pele ou o afinamento de seu nariz, Jackson passou por pelo menos duas internações nos anos 80 e 90.

Em 1990, Jackson ficou internado durante dois dias após sofrer dores no peito.
Depois de exames, o hospital Saint John, em Santa Monica (Califórnia), afirmou que o cantor nunca sofrera problemas cardíacos.

Na época, diziam que o astro, vegetariano, tomava mais de 40 comprimidos de vitaminas. Ele queria, com isso, viver até os 150 anos.

Em 1984, também foi internado, desta vez por causa de queimaduras de segundo grau num acidente durante gravação de um anúncio para a Pepsi.
Foi atingido por fagulhas que queimaram seu cabelo, situação agravada com a brilhatina.


Ícone pop foi a união entre anjo e cafetão
Combinação de Brown e Wonder, vendeu 750 milhões de discos

Esquisitice crescente dos últimos anos não esconde talento do astro, que fundiu os gêneros soul, disco e novo rock, quebrando recordes

ANDRÉ FORASTIERI
ESPECIAL PARA A FOLHA

Michael Jackson aprendeu a cantar como um anjo e dançar como um cafetão fazendo shows em puteiros aos oito anos de idade. Levava surra do pai, Joseph, se não se apresentasse bem, se não ensaiasse o suficiente -qualquer razão era boa. Os irmãos Jackson entravam todos no couro.

Michael, o sétimo filho e óbvia estrela do grupo, apanhava mais. Na casa dos Jackson era Deus no céu -Jeová, eram Testemunhas- e Joseph na terra.

O pai tinha tentado se dar bem como artista. Acabou metalúrgico e empresário e feitor dos filhos. Devemos a esta figura detestável o maior artista que a música jamais teve. Contra números não há argumentos. São 750 milhões de discos vendidos até agora.

O Jackson 5 estreou em 1967, mas foi em 1968 que passaram a fazer parte do elenco da mais eficiente máquina de produção de hits em série da música pop.
A Motown Records foi fundada por Berry Gordy em 1959. Seu primeiro hit foi composto pelo próprio Gordy, "Money (That's What I Want)". Declaração de princípios, ou falta de. A Motown fazia qualquer coisa por um sucesso. Emplacou muitos -Supremes, Marvin Gaye, a lista é imensa.

Os primeiros singles do Jackson 5 na Motown foram "I Want You Back", "ABC", "The Love You Save" e "I'll Be There". Já mereciam os livros de história. Os programas de TV da época não mentem. Michael era endiabrado. Requebrava como James Brown, cantava como Stevie Wonder e era fofo como um anjo.

O primeiro disco solo chegou aos 17 anos, "Got to Be There".

De 1976 a 1984, Jackson seria não só o frontman do Jackson 5 -depois rebatizado como The Jacksons- mas seu principal compositor.

Em 1978, com 20 anos, Jackson encontrou uma outra figura paterna. O experiente jazzista Quincy Jones, diretor musical do filme "The Wiz" -em que Michael encarnava o Espantalho do mundo de Oz- produziria com Jackson "Off The Wall" e "Thriller". "Thriller" fez a ponte entre o soul dos 60, a disco dos 70 e o novo rock dos 80. Era new wave. Era pop.

O melhor do pop de três décadas. E popular. Vendeu entre 50 milhões e 104 milhões de cópias. O mínimo já é recorde para sempre imbatível.

Jackson tinha 37% do preço de cada disco vendido. Os anos seguintes foram de esquisitice crescente -parte marketing, parte verdadeira. Em 1987, Michael lançaria "Bad", uma tentativa de repetir "Thriller". Vendeu menos. Soava quase sempre histérico, equivocado e pior, velho. Aos 29 anos, o superastro estava ultrapassado. Era uma anedota bilionária.

O que veio depois é menos importante musicalmente. Em alguns casos, constrangedor. A música piorou. Ficou impossível dissociar Michael, o artista, de Michael, o homem cada vez mais distante de sua humanidade. Com sua morte, tudo será perdoado, como foi a seu ídolo, James Brown. Agora não é mais um slogan vazio: Michael Jackson será para sempre o rei do pop.

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ANDRÉ FORASTIERI, 43, é diretor editorial da Tambor Digital.



Último show reuniu Brando e Britney Spears
DE WASHINGTON

Assisti ao último show de verdade que Michael Jackson fez, no dia 7 de setembro de 2001, no Madison Square Garden, em Nova York. Era uma sexta-feira, quatro dias antes da data que jogaria o mundo no novo milênio a golpes de aviões e prédios desabados.

Cerca de 46 mil pessoas pagamos para ver a celebração de seus 30 anos como artista solo.

A apresentação foi puro Michael Jackson, com todas as bizarrices que o caracterizaram nos últimos anos de vida. Que outro músico reuniria Macaulay Culkin e Liza Minelli na plateia e Marlon Brando e Britney Spears no palco?

Mas estavam lá as músicas, danças e passos que marcaram gerações de fãs e músicos e o tornaram o Rei do Pop.

Reunidos para a ocasião, os Jackson Five, então só The Jacksons, cantaram clássicos como "ABC" e "I'll Be There".

Michael cantou "Billie Jean" sozinho e "The Way You Make Me Feel", "Black or White" e "Beat It" em duetos.

A próxima vez que eu o veria ao vivo já seria num tribunal de Santa Maria, na Califórnia, cidadezinha ao lado de seu rancho de Neverland, em 2005, onde ele respondia a acusações de ter abusado sexualmente de um menor de idade.

Todos usávamos os obrigatórios paletó e gravata. A única pessoa que destoava do grupo era ele. E ele vestia uma calça de pijama.
(SÉRGIO DÁVILA)



Nova turnê milionária, que começaria em duas semanas, já tinha sido adiada
DA REPORTAGEM LOCAL

Em 13 de julho, Michael Jackson iria começar uma turnê apropriadamente superlativa. Seriam 50 shows na O2 Arena, espaço que abriga 23 mil pessoas em Londres. A série de apresentações terminaria apenas em março de 2010.

O anúncio da turnê foi feito em janeiro, na Inglaterra, em frente a 7.000 fãs. Produtores culturais calculavam que o cantor poderia arrecadar até US$ 400 milhões (cerca de R$ 780 milhões) com esses shows.

A turnê serviria para Jackson cobrir uma dívida que bateria em R$ 320 milhões.
À Folha, o norte-americano J. Randy Taraborrelli, que escreveu "A Magia e a Loucura", biografia não-autorizada do cantor, afirmou recentemente não acreditar que problemas financeiros fossem o principal motivo da extensa turnê.

"Michael teve muitos problemas financeiros desde meados dos anos 90. Isso não é novo, ele sofreu com esse tipo de rumor há algum tempo. Não acho que ele esteja fazendo esses shows por dinheiro. Minha impressão é que ele deseja que seus filhos vejam quem ele é, um dos "performers" mais populares do mundo. Seus filhos praticamente nunca o viram no palco", disse o escritor.

1 milhão
Ingressos começaram a ser vendidos em 10 de março -até ontem, em diversos sites europeus, era possível comprar entradas para todos os shows por preços pouco acima do oficial.

Segundo assessores, cerca de 1 milhão de ingressos haviam sido vendidos nos primeiros dias de comercialização.


Adiamento
A turnê inicialmente começaria em 8 de julho. Mas Jackson adiou três apresentações (as do dia 8, 10, 13 e 14 de julho) -motivo oficial: problemas na produção cenográfica.

O jornal britânico "The Sun" especulou que a turnê seria novamente adiada porque o cantor estaria sofrendo de câncer de pele -informação negada pela assessoria do artista.


Mistério
A turnê estava envolta em mistérios. Circulou pela imprensa britânica a informação que Jackson estaria obrigado a cantar por apenas 13 minutos -no restante do tempo, ele faria playback.

Jackson aproveitaria a série de shows, chamada de "This Is It", para se apresentar em outros países.
(TN)


Acusações de abuso marcam fim da carreira
Cantor foi inocentado em dez ações que envolviam atos sexuais contra um menor

Não foi o primeiro caso do astro envolvendo crianças -em 1994, desembolsou US$ 22 milhões para ter um processo arquivado

THIAGO NEY
DA REPORTAGEM LOCAL

Michael Jackson não lançava um álbum de estúdio desde 2001, quando o estrambótico, megalomaníaco e medíocre "Invincible" alcançou o topo da parada norte-americana.

Desde então, em vez de ouvir elogios por suas canções, passou a conviver com incontáveis rumores sobre sua vida pessoal.

Em 2005, enfrentou o maior desafio de sua carreira: era alvo de dez acusações que envolviam molestamento sexual de um menino de 13 anos. Foi inocentado por júri popular.

Não foi o primeiro problema do astro envolvendo crianças -em 1994, pagou US$ 22 milhões (R$ 43 mi na cotação de ontem) para que uma acusação de que teria abusado sexualmente de um menor fosse arquivada pela Justiça americana.
Cercado por crianças, com rosto e corpo nunca à mostra, após passar por um sem-número de cirurgias plásticas, Michael Jackson em quase nada lembrava o menino que aos cinco anos juntou-se aos irmãos no lendário Jackson 5.

Em 1970, estrela da gravadora Motown, o grupo já tinha nos bolsos quatro canções no topo das paradas: "I Want You Back", "ABC", "The Love You Save" e "I'll Be There". Com menos de 15 anos, Michael lançou o disco solo de estreia.

Jackson começou a reivindicar o título de "Rei do Pop" em 1979, com "Off the Wall", álbum que reunia o balanço da soul music e do funk aos passos dançantes da disco.

O mito tomou forma em 1982. O lançamento de "Thriller" é um paradigma da música pop. Com um hit atrás do outro ("Beat It", Wanna Be Startin" Something", "Billie Jean", "Thriller"...), o álbum -e seus vídeos- mostra Jackson como um artista completo: exímio dançarino, cantor de repertório vasto e compositor esperto.

Em 1983, o cantor assombraria o mundo com o Moonwalk, o até hoje copiado passo de dança que ele popularizou em um especial de TV em homenagem aos 25 anos da Motown.

Tentou jogar luz ao problema da fome na África com a faixa "We Are the World", que fazia parte do projeto "USA for Africa". Em 1985, Jackson estava no topo do mundo.


Transformação
Jackson nunca mais repetiria o sucesso de "Thriller". Colecionou críticas ao comprar os direitos de 250 músicas dos Beatles, o que inviabilizou a execução dessa faixas em diversos formatos.

O disco "Bad" emplacou diversos hits, mas Jackson passou a receber menos atenção por suas canções e mais pela sua aparência -o nariz alongado, a pele esbranquiçada, o cabelo liso...

A transformação por que passou a cor da pele de Jackson motivou os mais diversos rumores -ele teria utilizado tratamentos heterodoxos para embranquecer a pele; Jackson afirmara que sofria de vitiligo.

A música de Jackson tornou-se infantilóide, boboca. "Dangerous", de 1991, e "HIStory", de 1995, são medíocres -letras insípidas, melodias canhestras.
Nos anos 1990, Michael Jackson tornou-se um enigma -ninguém sabe o que se passa com ele, o que faz. Seu talento também estava escondido.

As acusações de abuso sexual que sofreria tornaram Jackson ainda mais arredio e misterioso. Foi morar no Bahrein, balançou um de seus filhos em uma janela de um hotel alemão.

O título de seu último disco, "Invincible", parece uma tentativa desesperada de mostrar aos críticos que ainda era o Rei do Pop. Não precisava. Com o Jackson 5 e com "Off the Wall" e "Thriller", Michael Jackson estarno trono para sempre.



Frases
"Eu cortaria meus pulsos antes de machucar uma criança"

 

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Em 2003, após ser acusado novamente de abusar de crianças, no programa de TV americano "60 Minutes"

"Não posso ir ao parque, então criei meu próprio parque em Neverland... com meu cinema... meu parque temático...é tudo para mim"

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Em entrevista à apresentadora Barbara Walters, em 2007

"Tenho um problema de pele que destrói a pigmentação. É algo sobre o que não posso fazer nada, ok? Mas, quando inventam histórias dizendo que não gosto de ser o que sou, isso me machuca..."

"Nunca estou satisfeito comigo. Tento não olhar no espelho"

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Em entrevista à Oprah Winfrey, 1993


"O "moon walk" é uma dança. Adoraria ter o crédito, mas não posso porque preciso ser honesto aqui. Foram as crianças negras do gueto, elas têm o ritmo mais fenomenal da Terra.
Não estou brincando.
Aprendi, pego um monte de ideias só de ver essa garotada negra"

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Em programa de rádio, em 2005


"Me entristece que muitos possam de fato acreditar nessas perturbadoras falsas acusações... Não, eu nunca tomei hormônios para manter minha voz fina! Não, nunca tive minhas bochechas alteradas de qualquer maneira! Não, nunca fiz cirurgias comés-ticas nos meus olhos!"

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Nota para a imprensa, em 1984



Esquisitice aumentou alvoroço no Brasil
Cantor fez dois shows no Morumbi em 93 e gravou clipe com Spike Lee em 96

Aos nove anos, Junior, da dupla com Sandy, perdeu parte da adoração pelo rei do pop ao participar de show e ver "sua cara branca"

LÚCIO RIBEIRO
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

O nariz estranho, a pele esbranquiçada e esquisita, o risoto de polvo com pedaços de pimentão no almoço do hotel.

Cercado pela sua grandiosidade pop e muito também pelos aspectos bizarros que marcavam sua persona, Michael Jackson chegou ao Brasil em outubro de 1993 para dois intensos shows no Morumbi.

O forte ruído da presença do ícone jovem no país viria não só de sua pegajosa, dançante e ultra-rentável música mas de tudo o que compunha o "estranho mundo de Michael". Do garçom subornado para revelar suas refeições ao lixo revirado no hotel em que o cantor estava hospedado, tudo era notícia.

Era a segunda das três visitas que o cantor faria ao país. A primeira foi com os irmãos da formação Jackson 5, em 1974. Mas, ali em 1993, Michael Jackson era MICHAEL JACKSON. E a turnê era "Dangerous".

No embaraçoso calor das primeiras acusações de pedofilia nos EUA, ele desembarcou no Brasil e foi recebido com flores por Junior, da dupla Sandy & Junior, com nove anos à época.

"O promotor do show [Dody Sirena, empresário de Roberto Carlos] de Michael Jackson no Brasil sabia que eu era muito fã e me chamou para ir recebê-lo no aeroporto. Cheguei lá, me levaram até a porta do avião, entreguei um buquê que me deram e disse "oi" para o Michael. Ele só riu", lembra Junior.

No segundo show do Morumbi, Junior ficou ao lado de Jackson no palco, durante a música "Heal the World". O artista mirim havia sido treinado para executar a linguagem dos surdos-mudos na canção.

"Lembro que me atrapalhei todos nos sinais. E deixei o palco de mãos dadas com o Michael. Eu era superfã, mas confesso que, vendo ele ali perto de mim, todo esquisito, cheio de maquiagem branca na cara, deu uma esfriada na adoração."
A passagem pelo Brasil foi devastadora, não só pelas duas horas de show nos dia 15 e 17 de outubro daquele ano, que reuniram perto de 180 mil pessoas.

Assim que botou os pés em São Paulo, o cantor foi brincar no Playcenter, com o parque fechado só para ele. Também foi visitar a fábrica da Estrela para comprar brinquedos "para doar às criancinhas brasileiras". Na saída, um dos furgões da comitiva que fazia a segurança atropelou dois fãs, um de 14 e outro de 15 anos, quebrando a perna do mais velho.

No dia seguinte, Jackson foi visitar o garoto Marcio Alberto de Paula no hospital. A produção do show entregou ao menino um cheque para ajudar nos custos de sua recuperação.

O Rei do Pop voltaria ao Brasil três anos depois, para gravar o vídeo de "They Don't Care about Us", do álbum "HIStory" (95). O cineasta Spike Lee foi o responsável pelas filmagens.

Jackson botou o grupo Olodum para tocar tambores pelas ruas do Pelourinho, em Salvador, e depois ainda gravou na favela Dona Marta, no Rio, quando conseguiu a liberação do traficante Marcinho VP.
No fim, ele fez história no Brasil mais pelos bastidores de suas visitas do que pelos shows.


Obra-prima, "Thriller" custou a vida de Michael
Tudo o que Michael Jackson fez depois deixou a desejar

PAULO RICARDO
ESPECIAL PARA A FOLHA

ABC, easy as 1,2,3, a NBC confirma, a CNN não confirma, mas segundo a TMZ... nesse festival de siglas, intrigas e mistérios, a dura e nua verdade é que Michael Jackson já estava morto há muito tempo.

Da mesma forma metafórica que Elvis morreu quando entrou para o Exército, segundo os puristas do rock"n"roll, aquele negro querubim que conquistou corações e mentes de todo o mundo, de certa forma foi se deteriorando como um antigo fax, à medida em que perdia a cor. Talvez Michael esteja agora em alguma cidade fantasma imaginária conversando com Elvis e Hitler.

Contudo, esta informação ainda não está confirmada!
Meu primeiro contato com Mr. M foi por meio do desenho animado que ele e seus irmãos do Jackson 5 estrelaram no começo dos anos 70. E eu me perguntava qual seria o efeito, na cabeça de uma criança, ao assistir seu desenho favorito... o de si mesmo. Devastador, mostrariam os capítulos seguintes.

Aquela miniatura de James Brown, com voz de Diana Ross, estava só no começo de sua escalada até se intitular King of Pop.

Mas não sei se vocês, leitores, sentiram a estupefação que senti ao vê-lo fantasiado de Billy Idol, com sua voz de contratenor gritando "I"m bad", enquanto segurava suas partes num gesto quase obsceno.

O que se seguiu foi um festival de delírios totalitários fascistas, trajes reais, salpicados de cristais Swarowski, e muita, muita bizarrice enquanto Michael tentava se metamorfosear em Elizabeth Taylor. Tudo isso servido com uma suave redução de pedofilia light.

Mas paralelamente, sua música deixava cada vez mais a desejar. Até porque qualquer novo trabalho de Jacko Wacko seria impiedosamente julgado pelo mais cruel dos parâmetros: a inigualável obra-prima "Thriller".

Disco mais vendido da história da humanidade, este trabalho revolucionou o entretenimento de uma maneira sem igual, Fred Astaire, Beatles, Stones, MTV, Walt Disney, Quincy Jones, Eddie Van Halen, enfim, uma síntese sem precedentes para um sucesso mortal, e que praticamente custou a vida de seu artífice.

Os fãs de hoje são os linchadores de amanhã, já dizia Millôr. Nunca me senti atraído por essas imolações em praça pública da recente cultura de celebridades. Sentia sim, muita falta daquele jovem negro lindo de black-tie na capa de "Off the Wall", daquele R & B melódico, dançante, daquela voz sem igual. Agora vamos nos sentar e nos preparar para o macabro espetáculo midiático que se seguirá à morte de Michael.

Só nos resta refletir que, talvez, um pouco como Jesus Cristo, um pouco como John Kennedy, como disse Mick Jagger, quem matou Michael Jackson, it was you and me.

 

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PAULO RICARDO é cantor e compositor.



A morte mais lenta da história do showbizz
Jackson pagou alto preço pelo dom do fogo criativo

JOÃO MARCELLO BÔSCOLI
ESPECIAL PARA A FOLHA

O artista é um ser com aptidões contraditórias. Por um lado, é um "homem comum" com apetites, desejos, frustrações, contas para pagar. Por outro, é um homem em um sentido maior: um "homem-coletivo". Aquele que capta e dá forma ao inconsciente da raça humana e o devolve sob a forma de uma obra de arte. E a realização dessa tarefa mobiliza uma grande quantidade de energia.

É como se fossem dotados de um certo capital de energia ao nascer, e o lado que precisa realizar essa tarefa sobre-humana tentasse tomá-la integralmente para si.
Nada pode impedir a execução de sua missão -muito menos o lado humano. Este é visto quase como um erro, uma limitação do artista.

Talvez, por isso, os artistas permaneçam infantis e vaidosos depois de adultos, desenvolvendo uma série de más características e idiossincrasias no campo pessoal, para evitar que o "homem comum" desperdice energia e tempo, atrapalhando sua jornada. De certa forma, ele se torna sua obra.

"Fausto" define Goethe, "Billie Jean" define MJ -e não o contrário. O artista permite que a obra se manifeste através de si -e não o contrário.

Como regra, a vida do artista é altamente insatisfatória -para não dizer trágica-, afinal, duas forças opostas duelam o tempo todo dentro dele, tentando tomar o poder. Há de se pagar um alto preço pelo dom do fogo criativo.

A dualidade dos sexos é fundamental para a concepção de um novo ser, assim como a razão e a loucura são necessárias para a criação artística.

Pode ser ou parecer uma limitação o tal lado humano, mas ao costurar sua fantasia em seu próprio corpo, Michael Jackson abriu mão de sua dualidade, da energia gerada entre os extremos e, consequentemente, de sua fonte criativa.
Foi a morte mais lenta da história do show-business.

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Baseado em um texto de Carl Jung

JOÃO MARCELLO BÔSCOLI é produtor-executivo do selo Trama



A VIDA DE MICHAEL

A trajetória do cantor até os 50 anos

1958
Nasce, em 29 de agosto, na cidade de Gary, Indiana, EUA

1963
Junta-se aos irmãos mais velhos no grupo que o pai organizava e que se tornaria os Jackson 5

1968
O grupo assina contrato com a Motown e lança, no ano seguinte, seu primeiro disco

1970
"I Want You Back", "ABC", "The Love You Save" e "I'll Be There" chegam ao primeiro lugar das paradas
1972
Lança seu primeiro disco solo "Got to Be There". No ano seguinte, o single "Ben" alcança o topo das paradas

1975
Os Jacksons deixam a Motown por um contrato mais lucrativo com a CBS. A antiga gravadora processa o grupo

1977
Conhece o produtor Quincy Jones, que produziria seus dois próximos álbuns

1979
Lança seu primeiro álbum solo adulto, "Off the Wall"

1982
Grava "Thriller", um dos álbuns mais vendido de todos os tempos. O disco traz sucessos como "Billie Jean" e "Beat It". Mesmo desaconselhado por sua gravadora, Michael encarna um zumbi no clipe de "Thriller", dirigido por John Landis

1983
Dança pela primeira vez o "moonwalk", em um especial transmitido pela TV, no aniversário de 25 anos da Motown

1984
Durante a gravação de um comercial para a Pepsi, o cabelo do cantor pega fogo acidentalmente

1985
Escreve, com Lionel Richie, a música "We Are the World", para uma campanha de combate da fome na África. No mesmo ano, compra os direitos do catálogo das canções dos Beatles, por U$47,5 milhões, o que desgrada Paul McCartney

1987
Lançado o álbum "Bad", que emplacou cinco hits em primeiro lugar na Billboard. A fisionomia do cantor no clipe da faixa que dá nome ao disco despertou rumores sobre cirurgias plásticas. No mesmo ano, compra o rancho Neverland, na Califórnia

1988
Lança a autobiografia "Moon Walk", em que atribui a mudança de seu rosto a duas plásticas no nariz e a perda de peso, entre outros

1991
Lança o álbum "Dangerous", com os hits "Black or White" e "Remember the Time". O cantor revela a apresentadora Oprah Winfrey que uma doença havia provocada as mudanças na cor de sua pele

1993
Traz ao Brasil o show da turnê "Dangerous". Depois, quando ele é acusado de molestar um garoto de 13 anos, a turnê é interrompida. No ano seguinte, chega a um acordo com a família do menino e paga US$ 23 milhões para a retirada das acusações

1994
Casa-se com Lisa Marie Presley, filha de Elvis Presley, e se divorcia 19 meses depois

1995
Lança o álbum "HIStory"

1996
Grava, no Rio e em Salvador, o clipe de "They Don't Care about Us". Casa-se com Debbie Rowe, grávida de seu primeiro filho, Prince Michael

1997
Ingressa no Hall da Fama do Rock

1999
Nasce sua filha Paris Michael Katherine. No mesmo ano, o casal se divorcia -eles nunca chegaram a viver juntos. Michael fica com a guarda das crianças

2001
Lança o álbum "Invincible"

2002
Nasce o terceiro filho do cantor, Prince Michael II, fruto de inseminação artificial, com mãe cuja identidade nunca foi revelada. No mesmo ano, ele pendura a criança, com apenas nove meses, para fora da janela de um hotel, em Berlim

2005
Vai a julgamento, acusado de molestar um menino de 13 anos em 2003, mas livra-se das acusações quatro meses depois. Depois do julgamento, ele se muda para Bahrein, como convidado da família real do principado. O cantor enfrenta grandes dificuldades financeiras

2009
Após 12 anos afastado dos palcos, iniciaria uma turnê de 50 apresentações em Londres no próximo dia 13 de julho




Michael Jackson em números

80 semanas foi o tempo que o disco "Thriller" apareceu na lista dos dez mais vendidas nos EUA

37 dessas semanas, o disco estava em primeiro lugar

US$ 500 mil foi o orçamento do clipe de "Thriller", de 14 minutos

750 milhões de discos de Michael Jackson já foram vendidos

12 prêmios Grammy foram levados para casa por Michael em 1984, o maior número já ganhado numa noite na história da premiação

1 milhão de unidades de do clipe de "Thriller" foram vendidas, fazendo ele entrar para o Guinnes como o vídeo mais bem sucedido de todos os tempos, tento vendido mais de 1 milhão de unidades

Michael foi o primeiro artista a ganhar mais de US$ 100 milhões em um ano

US$ 125 milhões foi quanto Michael ganhou em 1989, fazendo dele o artista mais bem pago do ano

US$ 17 milhões foi quanto Michael pagou pelo rancho Neverland, em Los Angeles, em 1987

US$ 35 milhões foi quanto ele investiu depois, no rancho, para incluir na propriedade um zoológico e um parque de diversões

US$ 12,5 milhões eram os gastos anuais Michael, divididos entre gastos pessoais e com Neverland, descobriu-se em levantamento durante o processo por assédio sexual em 2005

US$ 140 milhões foi o valor do primeiro dos empréstimos que ele teve de fazer para pagar suas dívidas, em 1998

19 meses foi quanto durou o casamento de Michael com Lisa Marie Presley

US$ 60 milhões foi quanto arrecadou o single "We Are The World", de 1985, parceria de Michael e outros artistas para ajudar a aliviar a fome no Terceiro Mundo

US$ 700 milhões é quanto a soma dos royalties dos discos e dos lucros de Michael com shows, publicidades, e afins teriam gerado desde 1980

US$ 270 milhões era o valor estimado da dívida de Michael em dezembro do ano passado

US$ 2 milhões foi quanto o cantor recebeu pela primeira entrevista após o julgamento em que foi absolvido de ter sequestrado, abusado e intoxicado um menor de idade.

Michael foi casado 2 vezes

Michael deixa 3 filhos: Prince Michael, Paris Michael Katherine e Prince Michael II

Michael foi processado 2 vezes por abuso sexual: uma em 1993 (que foi resolvido com um acordo), e outra em 2003 (de que foi absolvido)

3 anos foi quanto durou o casamento com a enfermeira Debbie Rowe

5 anos era a idade de Michael quando ele começou a se apresentar com os irmãos no grupo Jackson Brothers, que depois viraria os Jackson 5



 


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